9.7.02

Paixões Paralelas
Muitos já tentaram explicar, quantificar e até racionalizar o amor e, por que não dizer, até monopolizar. Como é possível que alguém creia ser capaz de conter o maior poder do mundo? Como querer isolar a força que move a humanidade com limitações absurdas de como e a quem amar?
Pode-se reter os ventos dentro de um vaso?
Sim. Tanto quanto encarcerar o amor!
Não há barreiras para quem experimenta as intempéries da paixão. Mesmo sob a pior das circunstâncias há de se encontrar algo que faça o amor surgir, brotar por entre a terra árida e infértil. Mesmo que isso signifique burlar todo um sistema burocrático e convencional, mesmo que isso signifique trapacear contra normas de comportamento pré-estipuladas, colocar-se à deriva.
Isso: arriscar-se às paixões.
Viver intensamente, amar sem medo, sem normas, sem limites, amar e amar incondicionalmente.
Claro que quem se arrisca por entre relacionamentos paralelos acaba por colher muito mais do espera, além de aventuras e paixões pode-se criar sentimentos de dor e sofrimento intenso, confusões e incertezas, medos e arrependimentos. Mas afinal, o que é viver? Senão esta louca jornada pelo inexplicável mundo das sensações e sentimentos? Sendo assim não é possível prever que o amor seja algo exclusivo e monopolizado, que há de surgir uma única vez na vida e, caso venha a sucumbir às obrigações cotidianas, far-se-á estéril. Por outro lado, vejo no amor, possibilidades infinitas de ampliar horizontes, aguçar sentidos, alimentar emoções.
Por que privar-se deste poder que instiga e faz crescer?
Amar ao outro significa necessariamente podar-se para o mundo?
O que é amor e o que é paixão?
Devemos ou não ceder aos desejos da carne e às tentações das paixões?
São questões muito antigas, e há muito sem respostas... portanto, não há o que responder.
Como já diziam os mais antigos: "o que não tem remédio, remediado está!"
E por mais polêmica que venha a causar, por mais condenado que seja, as paixões paralelas são sempre tão intensas que na maioria das vezes deixam marcas mais profundas do que relacionamentos longos com parceiros fixos.
É motivo para discussões e divórcios, sem contar as inúmeras argumentações: há quem diga que quem trai, não ama, outros defendem que sexo por sexo não é trair, basta não se entregar à paixão para descaracterizar a infidelidade. Mas há alguma vantagem em relacionamentos desprovidos de sentimento?
É possível envolver-se com a vida, com o trabalho, com os amigos, com o parceiro sem o sentimento de paixão? Pode sentir-se vivo sem estar apaixonado??
A não ser que você seja um iceberg ou um frango resfriado sem coração, não vejo possibilidades...
Amor e paixão
Se invadires meu corpo com teu modo estranho de penetrar
Se rires do modo estranho que te receberei
Se me afagares ainda
Como se tu fosses aquela alma velha que provoca arrepios em todas as posições dos ponteiros do relógio,
E se por fim, cantares para ninar meu reto pensamento...
De certo chamar-te-ei paixão.
Mas, se após entrares te dissipares infinitamente,
Após o riso me deres a oportunidade da coragem, após o afago descansares
E, se por fim, após o canto deixares o meu sono despertar para o infinito presente,
De certo vivenciar-te-ei amor.

Revirando coisas antigas encontrei uma carta que escrevi para um antigo affair. Percebi quanta dor e quanta falta de amor pr?prio exalavam daquelas linhas...
Se tivesse tido tempo e sanidade suficiente para avaliar (e se n?o fosse essa tal de internet) acho que nunca a teria enviado.
...J? dizia minha av?: "quanto mais se abaixa, mas aparece a calcinha!!"
Digitei tudo o que vinha à cabeça e num piscar estava clicando em "send". Nunca recebi resposta. Pelo menos n?o escrita.
O silêncio é a resposta de quem n?o tem nada a dizer....


"Oi. Gostaria de te dizer um milh?o de coisas, mas acho que se disser uma bem dita j? ser? o suficiente. N?o vou tentar ordenar as idéias, pois eu n?o conseguiria.
Criatura!!!! Por que me ligar de madrugada depois de tanto tempo de ausência??? Por que me destes teu n?mero novo??? Pra continuar n?o atendendo??? Pra continuar me ignorando???
Isso beira ao sadismo...
Sou péssima em decodificar sinais. N?o entendo o que fica "por entre linhas".
Mesmo assim criei coragem pra te ligar, pra abaixar a armadura, pra dizer o quanto tenho sentido saudades tuas, em quanto eu mudei meus conceitos e a minha rigidez de princ?pios. Que j? n?o importa o que é certo e o que é errado, o que me importa é que me fazes falta. Sinto falta do teu beijo, do teu cheiro, da tua voz. Sinto falta de você. Eu sinto. Independente do que tu sentes.

Mas você n?o atendeu. Desligou o telefone.

Ahhhhhh... eu estava t?o bem.... Acostumada com a ausência.
Progressivamente eu estava me distanciando. N?o faltava mais muito. Ali?s, faltava t?o pouco... J? n?o lia mais teu nome nos jornais, n?o via o teu rosto na tv, nem ouvia mais a tua voz no r?dio....

Entenda, n?o estou te pedindo pra voltar, pra se apaixonar por mim, nem nada parecido. Estou te pedindo apenas que n?o insinue coisas que n?o s?o verdades. Que n?o faça coisas que possam gerar sentimentos de esperança no "meu eu".

N?o tenho vergonha de dizer que n?o soube lidar com a paix?o. Reagi feito bicho. Tive medo, confesso, de ficar envolvida. Eram tantas as quest?es: o moralismo, o que é certo e o que é errado, a ética, os princ?pios, as "coisas que n?o valem o preço", a culpa duelando com a vontade de continuar, com o medo da rejeiç?o.
O medo, o medo. O medo.
Se no fim tu tivestes tua parcela de culpa, pelas frases mal acabadas, (m?s) intenç?es camufladas com flores, etc e tal, isso n?o sei e n?o me importa saber. Quero ?nica e exclusivamente pedir desculpas pelos erros que eu cometi em relaç?o a tua pessoa. Quis dizer tantas coisas e acabei dizendo outras, muito menos importantes e com certeza bastante mesquinhas. Perdi grandes oportunidades de ficar de boca fechada.
Est?pida e sarc?stica cobrei respostas que tu n?o tinha. Queria posiç?es que nem eu sabia se seria capaz de tomar. Errei. Pronto. E n?o teria errado se n?o estivesse apaixonada.
? f?cil n?o errar quando n?o se faz nada.
? f?cil conviver com a ausência quando o outro n?o te faz falta.
Pois é....
Prefiro ter errado do que n?o ter tido motivos para me envolver contigo.
Sexo sem amor, envolvimento s? por prazer: Isso n?o faz parte do meu ser.
Prefiro ser passional a ser fr?vola.
Prefiro n?o conseguir esquecer a n?o ter o que lembrar.
N?o gosto de joguinhos baixos de conquista. N?o deixo de falar as coisas s? por que os outros n?o sabem ouvir. N?o deixo de acreditar s? por que os outros n?o acreditam.
Inocência?
Pode até ser, mas deveria ter sido sempre assim.
Sido eu, para poder te olhar nos olhos e dizer que eu realmente era apaixonada por ti, dizer que deixar as coisas subentendidas, fazer teatro, induzir ao falso entendimento n?o fazem parte da minha rotina. Gosto de coisas claras. Frases completas.
Ah. Te peço desculpas por ter sido impertinente, inconveniente. Por ter deduzido que gostaria que eu ligasse pra ti. (j? que me destes (de novo) o teu novo n?mero. )
Queria muito conversar contigo. Te ver. Sem ter que procurar desculpas, inventar motivos, criar coincidências. Queria te ver. Te beijar te abraçar e dizer que sinto muito, mas muito mesmo a tua falta.
N?o vou dizer que n?o vou mais te ligar, nem escrever. Promessas falsas e infundadas.
Mas gostaria de ter mais firmeza.
"A certeza do n?o é infinitamente melhor que a incerteza do talvez."
N?o quero mais talvez. "Talvez ele pense em mim...
talvez ele sinta saudades, talvez ele queira me ver". Talvez, talvez, talvez...
Talvez n?o existe, n?o é?
Tem meu telefone.
Sabe onde eu moro.
Sabe onde trabalho.
Sabe onde estudo.
N?o aparece porque n?o quer.
"E o pior cego é aquele que n?o quer ver."

26.2.02

Crônica 02

Fragmentos

Um dia ele apareceu.
Feito pr?cipe encantado, s? que sem o cavalo . Bem... ele era um pouco mais baixo também. Talvez n?o t?o bonito ...
Parecia a pessoa certa.
Aconteceu de repente, como todas as paix?es: foi avassaladora, invadiu meus dias com um turbilh?o de novas sensaç?es e sentimentos.
No in?cio tentei relutar. Mas ele foi persistente. (como todos os pr?ncepes o s?o)
Surpreendeu-me ao extremo.
No in?cio (mas bem no in?cio) era apenas uma troca inocente (?) de correspondências...
Cartas e ligaç?es bem humoradas. Pequenos segredinhos compartilhados, frases inacabadas, intenç?es camufladas, sutis mensagens nas entrelinhas...
Meus dias com ele passaram a ter mais cor, minhas noites mais estrelas.
N?o precisou muito para que eu estivesse realmente envolvida. Dormia e acordava pensando nele. E ele, em modestos e divertidos trechos revelava o mesmo:
"Tenho pensado em ti v?rias vezes no dia. Me peguei fazendo coisas e pensando como você reagiria diante disso. V?rias vezes vejo seus olhos e seus cabelos encaracolados. Os dias s?o espaços que separam um outro encontro contigo. Isso é grave , doutora?"
N?o consegui fugir.
N?o! Minto. N?o quis fugir. N?o quis parar de sentir-me desejada, admirada, exaltada pelos meus predicados de mulher.
Em poucos meses descobri sensaç?es jamais sonhadas, est?mulos que iam do êxtase sublimativo à dor insuport?vel, da felicidade estonteante à tristeza m?rbida...
Ao vê-lo sentia meu coraç?o disparar de tal forma que parecia saltar do peito, faltava-me o ar. Dif?cil descrever as sensaç?es que me acometiam...
Cada minuto ao lado dele era insuportavelmente feliz. Tive medo.
Tão irônico quanto acreditar em vida após a morte e ter medo de morrer.
O fato é que eu n?o queria mais viver nas sombras com esta paix?o queimando no peito, queria-o mais, cada vez mais e a cada despedida sentia-me estrangulada, angustiada, sentia-me dilacerada.
Parecia que a cada novo encontro ele ficava com um pedaço da minha carne. A cada despedida eu morria um pouquinho.
E por não querer morrer tanto, optei em viver menos.
Sempre disse: Só não se perde o que não se tem.
Crônica 01

Fim de caso

Dias sem telefonemas.
Nenhuma mensagem nova no correio eletrônico.
Nenhuma chamada não atendida.
Silêncio total.
Casualmente um encontro:
- Olá. Como vai?
- Vou indo....
- Estranho você não ter ligado....
- É... não deu....Legal você por aqui. Que bom te ver.
- Você está bem, está bonita..... Faz dias né??? Por que não ligou? Aconteceu algo?

Lembro e penso:

“Na verdade aconteceu.
Naquela ocasião. A última. A furtiva. Várias horas emprestadas de outro alguém. Emprestadas não, roubadas mesmo.
Que oportunidade para fortalecer laços. Para dizer coisas que fizessem o furto valer a pena.
Mas nada. Nem você, nem eu. Não dissemos nada.
Eu a espera. Você inseguro.
Talvez tenha dito algo como “você nasceu para ser amada. Amada por mim.” Mas houve arrependimento, completou: “não sei até quando...”
Engraçado terminar a frase assim. Engraçado por que é trágico. Trágico por que eu teria dito que morreria para ser amada assim. Se você tivesse deixado...
Os amantes não querem datas pré-estipuladas para início, meio, e fim. Poderia ter me poupado.
Relevei. Fingi acreditar que você é assim mesmo. Tem dificuldades para se envolver. Tem medo de amar.

Dormimos, acordamos. O amor??? Magnífico. Perfeito. Mas não era amor. Não poderia ser. Não conseguia acreditar que fosse. Tenho dificuldades em sentir-me amada, você, em dizer que ama. Como poderia dar certo?
Ali, no quarto, que não era nosso, só nós.
Eu e você.
Você ali
Eu aqui
Não cúmplices, mas colegas de trabalho.
- Pega as coisas
- Não esquece de nada
- Olha a toalha
- Não leva a embalagem.... Tem o nome do mercado

Vamos à praia? Claro que sim! Vamos correr? Vem comigo.....
Que clima! O vento convidativo, o cheiro da água salgada, o céu nublado.... Virei, abri os braços. Fechei os olhos. Esperei seu encontro.
Qual minha surpresa ao notar que você me driblava. É.... assim mesmo, como quem mete a bola por entre as pernas do adversário e sai driblando em direção ao gol. Perfeito pro gol.
Sorri.
Foi gol??
Não, foi na trave.
Lá fui eu, atrás de você, tentando refazer a cena, da maneira certa, você me abraça, me beija e diz “I love you”.
Acho até que pude ouvir o barulho do disco riscando. Me vi no chão, estatelada com a cara na areia. Já no carro, a música não me deixava dormir. Trazia de volta a cena. Abri meus braços para você. Abri minha vida. Abri minha alma e você se esquivou. Passou driblando por mim. Senti os abutres rasgando minha alma. A carnificina da alma. Um escárnio.

Não pude deixar de me culpar. Se és tão evasivo, a culpa também é minha. Claro que sim. Quem poderia entregar-se a alguém tão maquiavélico como eu? Quem teria coragem de arriscar a alma pra alguém que te devora sorrindo? Jogado às hienas. Sim. Eu uma hiena. Que debocha da sua refeição. Uma grandessíssima hiena. Com meu sarcasmo doentio. Ah se arrependimento matasse. Não teria dito tantas coisas. Teria dito tantas outras.
Vou dizer.
Vou dizer como ele é importante pra mim. Vou dizer que passou tão rápido. Vou dizer que o peito aperta só em pensar de ficar longe dele. Vou dizer que não posso com a despedida. Vou pedir pra ele não me dizer adeus.
Quem sabe eu dissesse: “ valeu a pena”
Não. Muito seco. Muito curto. E depois, eu não tava bem certa disso. Preferi não mentir.

“na dúvida não ultrapasse”

Legal eu ler isso nas placas agora. Fiquei pensando se eu tivesse lido isso uns 3 meses antes. Não teria entendido. Claro que não.

Arrisquei:
- sabe, to sentindo um aperto, aqui no peito...

e eu ia terminar com:

- quando a hora de se separar vai chegando é assim mesmo. Fica um gostinho de quero mais. Queria que esse dia nunca tivesse fim.

Mas você não deixou eu terminar. Interrompeu-me abruptamente. Grosseiramente, por dizer.

- ihhhh. Lá vem choro. Tava demorando. Vai chorar agora ou depois??
- (respiro) não. Não vou chorar. Nem agora, nem depois ...
penso:
nem nunca mais. Já enterrei o morto.

Você morreu.
Você se suicidou em mim.”


- E aí?? Por que não me ligou mais?? Aconteceu alguma coisa?? – sua voz me traz de volta.
- Não. Não aconteceu nada.

E saio
E penso:
Só sepultei a crendice de ter encontrado o homem da minha vida. Que coisa! Logo eu que não acredito nessas coisas.... Fui achar que estava enganada.... Só desta vez! Quis acreditar muito nisso.
Sorrio.
De todo o nosso (curto) caso o mais proveitoso foi o fim. Que valeu para reafirmar o que eu já sabia:
“a única certeza é o arrependimento"





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